Calf Note #259 – Efeitos de longo prazo da nutrição no início da vida

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Autor: Jim Quigley

Traduzido por: Ana Luiza Resende e Rafael Azevedo

Introdução

As quantidades de líquidos fornecidas aos bezerros — leite integral comercializável, leite de descarte, sucedâneo ou combinações desses — aumentaram, sendo comum o fornecimento de 8 litros ou mais por dia antes do desaleitamento. O aumento do fornecimento de nutrientes líquidos retarda o momento em que os bezerros estão prontos para o desaleitamento, tornando a transição do desaleitamento um processo que exige manejo mais cuidadoso.

Os bezerros são alimentados com mais de 8 L de líquidos por dia para aumentar o ganho de peso no período pré-desaleitamento, melhorar a eficiência alimentar (embora com maior custo por unidade de ganho) e, potencialmente, melhorar a produção futura de leite. Diversos estudos associaram as taxas de ganho de peso corporal no período pré-desaleitamento com a produção de leite na primeira lactação (Raeth-Knight et al., 2009; Davis Moallem et al., 2010; Rincker et al., 2011; Soberon et al., 2012), embora existam muitos outros fatores associados à produção de leite na primeira lactação (Gelsinger et al., 2016).

Enquanto alguns estudos relataram melhorias no desempenho dos bezerros após o desaleitamento, outros mostraram pouca ou nenhuma diferença nas medidas corporais, no desempenho reprodutivo ou na produção de leite após o parto. Parte dessas diferenças pode estar associada ao número de animais utilizados nos estudos (são necessários muitos animais para detectar diferenças nesse tipo de pesquisa), a pequenas diferenças na ingestão total de nutrientes no período pré-desaleitamento ou à falta de controle de outros fatores (genéticos, nutricionais etc.) nos estudos realizados após o desaleitamento. De qualquer forma, os mecanismos biológicos que explicariam por que bezerros que crescem mais rápido antes do desaleitamento se tornam vacas mais produtivas ainda não estão completamente esclarecidos.

Um grupo de pesquisa da Trouw Nutrition, na Holanda, publicou um artigo no Journal of Dairy Science (Leal et al., 2025) descrevendo os resultados de um estudo que investigou “o que acontece” quando bezerros recebem diferentes quantidades de leite antes do desaleitamento. Os resultados são interessantes e constituem o tema desta Calf Note.

O Estudo

Bezerros Holandeses (n = 86), provenientes de um único rebanho leiteiro na Holanda, receberam quantidades semelhantes de colostro ao nascimento e, em seguida, foram designados para receber 4 L ou 8 L/dia de sucedâneo (15% de MS; 24% de PB; 18% de gordura; 45% de lactose), a partir do 2º dia de vida até o desaleitamento, aos 56 dias de idade. No dia 49, o fornecimento de leite foi reduzido em 50% antes do desaleitamento completo. Os bezerros tiveram acesso a concentrado (17% PB; 24% FDN; 18% amido), água e palha de trigo. Após o desaleitamento, todos os animais foram manejados e alimentados de forma semelhante, recebendo dietas compatíveis com as exigências do NASEM para novilhas em crescimento. A reprodução teve início quando os animais atingiram 390 kg de peso corporal.

O objetivo do estudo foi comparar o desempenho e o metabolismo após o desaleitamento. Especificamente, os pesquisadores avaliaram os efeitos dos tratamentos sobre o metabolismo da glicose e as alterações nos metabólitos sanguíneos coletados após o desaleitamento. Detalhes específicos dos tratamentos estão descritos no artigo original e não serão repetidos aqui.

 Resultados

Os resultados de desempenho estão apresentados na Tabela abaixo. Aos 70 dias de idade, os bezerros alimentados com 8 L de sucedâneo eram mais pesados (diferença de 9 kg), porém aos 330 dias essa diferença não foi mais significativa. As estatísticas de reprodução e concepção indicaram que não houve efeito do tratamento sobre o desempenho reprodutivo ou o crescimento entre 70 e 330 dias de idade. A ausência de diferenças foi atribuída à qualidade da dieta fornecida após o desaleitamento. Os autores levantaram a hipótese de que a alta taxa de crescimento pós-desaleitamento (>1 kg/dia entre 70 e 330 dias) permitiu que ambos os grupos crescessem rapidamente, possibilitando que o trato reprodutivo das novilhas alimentadas com 4 L de sucedâneo “compensasse” o menor crescimento inicial.

Item4 L8 LP-valor
Crescimento
N4243
PC d 70, kg84,993.90,01
PC d 330, kg356,7363,70,30
GMD 70-330, kg/d1,041.030,71
Reprodução
N4041
PC primeiro serviço, kg412,0416,00,58
GMD até o primeiro serviço, kg/d1.001,000,71
Idade ao primeiro serviço, d3993950,25
Concepção ao 1° serviço, %63730,30
Concepção
N3840
Idade à concepção, d4224120,19
Serviços/concepção1,461,350,48

Quanto aos efeitos do maior fornecimento de líquidos sobre o metabolismo da glicose, houve diferenças na forma como os bezerros responderam a uma infusão de glicose, conforme indicado na Figura abaixo. Bezerros alimentados com 4 L de sucedâneo (linha vermelha) produziram mais insulina em resposta à infusão de glicose durante a fase inicial. Os autores propuseram que o fornecimento de leite no período pré-desaleitamento pode afetar levemente o metabolismo da glicose bem depois do desaleitamento. A significância biológica e produtiva dessa observação não é clara.

Alterações nos metabólitos sanguíneos em bezerros, quando amostrados bem após o desaleitamento, podem indicar uma mudança metabólica de longo prazo. Os autores relataram que 14 metabólitos diferiram entre os dois grupos de bezerros. Os metabólitos foram agrupados por via metabólica – as diferenças estiveram relacionadas ao metabolismo de carnitina, glicerolipídios e purinas. Em conjunto, esses dados sugerem diferenças sutis no metabolismo do nitrogênio e dos ácidos graxos. Entretanto, essas pequenas alterações não estiveram associadas a mudanças produtivas no crescimento ou no desempenho reprodutivo.

*Figura 2. Visualização de vias metabólicas biologicamente relevantes evidenciadas por análise de enriquecimento com base nos metabólitos detectados aos 330 dias de vida no soro de novilhas leiteiras (n = 50) submetidas a diferentes níveis de ingestão de nutrientes no período pré-desmama.

*Purine Metabolism, Adenine containing = Metabolismo de purinas contendo adenina; Fatty Acid, Dicarboxylate = Ácido graxo dicarboxílico; Purine Metabolism, Guanine containing = Metabolismo de purinas contendo guanina; Glycerolipid Metabolism = Metabolismo de glicerolipídeos; Purine Metabolism, (Hypo)Xanthine/Inosine containing = Metabolismo de purinas contendo (hipo)xantina/inosina; Carnitine Metabolism = Metabolismo da carnitina; –log₁₀ (P-value) = –log₁₀ (valor de P).

Resumo

Bezerros alimentados com 8 em comparação a 4 L de sucedâneo crescem mais rapidamente. No entanto, as diferenças de crescimento podem ser “diluídas” após o desaleitamento, particularmente quando os bezerros recebem um excelente programa de alimentação sólida no período pós-desaleitamento, permitindo que “alcancem” os demais. Embora os bezerros alimentados com 8 L no pré-desaleitamento fossem 7 kg mais pesados aos 330 dias de idade, a variação no peso corporal não permitiu aos autores declarar significância estatística. Seria necessário um maior número de novilhas para tal afirmação. As diferenças metabólicas, embora significativas, foram sutis e sugeriram apenas efeitos limitados da nutrição pré-desaleitamento sobre o crescimento posterior. Ainda assim, os insights desta pesquisa sugerem que existem, de fato, efeitos de longo prazo da nutrição pré-desaleitamento em bezerros, e estudos subsequentes (com mais animais) podem explorar esses achados para identificar melhor como essas mudanças afetam a vaca.

Referências

Davis Rincker, L. E., M. J. Vandehaar, C. A. Wolf, J. S. Liesman, L. T. Chapin, and M. S. Weber Nielsen. 2011. Effect of intensified feeding of heifer calves on growth, pubertal age, calving age, milk yield, and economics. J. Dairy Sci. 94:3554–3567. https://doi.org/10.3168/jds.2010-3923.

Gelsinger, S. L., A. J. Heinrichs, and C. M. Jones. 2016. A meta-analysis of the effects of preweaned calf nutrition and growth on first-lactation performance. J. Dairy Sci. 99:6206-6214. https://doi.org/10.3168/jds.2015-10744.

Leal, L. N., J. B. Daniel,  J. Doelman, B. R. Keppler, M. A. Steele, and J. Martín-Tereso. 2025. Effects of preweaning milk allowance on long-term metabolism in Holstein heifers. J. Dairy Sci. 108:4988–4999. https://doi.org/10.3168/jds.2024-26005.

Moallem, U., D. Werner, H. Lehrer, M. Zachut, L. Livshitz, S. Yakoby, and A. Shamay. 2010. Long-term effects of ad libitum whole milk prior to weaning and prepubertal protein supplementation on skeletal growth rate and first-lactation milk production. J. Dairy Sci. 93:2639–2650. https://doi.org/10.3168/jds.2009-3007.

Raeth-Knight, M., H. Chester-Jones, S. Hayes, J. Linn, R. Larson, D. Ziegler, B. Ziegler, and N. Broadwater. 2009. Impact of conventional or intensive milk replacer programs on Holstein heifer performance through six months of age and during first lactation. J. Dairy Sci. 92:799–809. https://doi.org/10.3168/jds.2008-1470.

Soberon, F., E. Raffrenato, R. W. Everett, and M. E. Van Amburgh. 2012. Preweaning milk replacer intake and effects on long-term productivity of dairy calves. J. Dairy Sci. 95:783–793. https://doi.org/10.3168/jds.2011-4391.

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