Calf Note #288 – Nem todo leite desnatado é igual: processamento, qualidade da proteína e formação do coágulo

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Introdução

As duas primeiras Notas desta série reiteram um ponto: o nome do ingrediente no rótulo de um sucedâneo do leite para bezerros não conta toda a história. Um sucedâneo pode conter grande quantidade de leite desnatado em pó e, mesmo assim, não formar um coágulo firme. Uma fórmula à base de soro pode ser altamente digestível e proporcionar excelente crescimento. E dois produtos rotulados como “leite desnatado em pó” podem ter propriedades funcionais muito diferentes, dependendo de como o leite foi aquecido, concentrado, seco, armazenado e incorporado à fórmula final.

Esta talvez seja a lição prática mais importante do debate entre leite desnatado e soro. A questão não é apenas se o sucedâneo contém leite desnatado, mas se os ingredientes lácteos são nutricional e funcionalmente adequados ao bezerro jovem.

O calor é necessário, mas o excesso altera a proteína

O leite precisa ser aquecido durante o processamento para garantir segurança, evaporação e secagem. Esses processos inevitavelmente modificam as proteínas em algum grau. As proteínas do soro são particularmente sensíveis ao calor. À medida que a temperatura e o tempo de aquecimento aumentam, elas se desnaturam e podem interagir entre si e com a caseína. O aquecimento intenso também pode aumentar as reações de Maillard entre lactose e grupos amino, especialmente a lisina.

Essas mudanças não são necessariamente prejudiciais. Alguma desnaturação é inevitável, e a relação entre tratamento térmico e desempenho dos bezerros não é perfeitamente linear. A preocupação é o processamento excessivo que reduz a digestibilidade, altera a disponibilidade dos aminoácidos ou modifica o comportamento do pó reconstituído no abomaso.

Os experimentos clássicos com bezerros

Lister e Emmons (1976) prepararam leite desnatado em pó após aquecer o leite por 30 minutos a 60, 73,9 ou 85 °C. Bezerros jovens alimentados com o pó submetido ao aquecimento mais intenso apresentaram mais diarreia e crescimento inicial mais lento do que aqueles alimentados com os pós menos aquecidos. Mais tarde, a diferença no crescimento desapareceu e a digestibilidade dos nutrientes medida entre os dias 20 e 26 não foi afetada.

Essa resposta relacionada à idade é importante. O bezerro mais novo tem o sistema digestivo menos desenvolvido e pode ser mais sensível à baixa qualidade dos ingredientes. O mesmo ingrediente que provoca dificuldades nas primeiras duas ou três semanas pode ser melhor aproveitado por um bezerro mais velho.

Os pesquisadores também relacionaram o tratamento térmico à coagulação por coalho. A conclusão não foi simplesmente que “leite desnatado é bom”, mas que o pó submetido a aquecimento intenso poderia ser um ingrediente ruim para bezerros muito jovens e que a capacidade de formar coágulo poderia indicar seu histórico de processamento e sua funcionalidade.

Coagulação por coalho: útil, mas não é um teste perfeito de qualidade

Emmons e Lister desenvolveram estudos laboratoriais sobre a formação do coágulo. No teste de coagulação, leite desnatado reconstituído ou sucedâneo é exposto à quimosina em condições padronizadas; verifica-se se o coágulo se forma, em quanto tempo, sua firmeza e, às vezes, sua capacidade de expulsar soro (sinérese).

Para um leite desnatado em pó destinado a se comportar como leite integral no bezerro, esse é um teste funcional útil. Um pó que não coagula em condições laboratoriais razoáveis dificilmente apresentará o mesmo comportamento abomasal do leite minimamente processado. Contudo, o teste deve ser interpretado com cautela.

Emmons, Lister e Campbell (1976) avaliaram pós comerciais de leite desnatado e sucedâneos e constataram que o nitrogênio das proteínas do soro não desnaturadas não previa de modo confiável a coagulação por coalho. Alguns pós com valores relativamente altos ainda produziam coágulos fracos ou não coagulavam. A maioria dos sucedâneos comerciais testados também não coagulou, apesar de alguns apresentarem valores aparentemente altos desse nitrogênio.

Em outras palavras, um índice químico de aquecimento e um teste funcional de coagulação respondem a perguntas diferentes. Nenhum deve ser usado isoladamente como medida universal do valor nutricional.

WPNI: o que ele nos diz

O índice de nitrogênio das proteínas do soro (WPNI) é comumente usado para classificar o leite desnatado ou sem gordura em pó conforme o tratamento térmico. Mede o nitrogênio solúvel das proteínas do soro não desnaturadas. Tradicionalmente, WPNI maior indica menor dano térmico, e WPNI menor indica tratamento mais intenso.

As categorias convencionais são aproximadamente: baixo aquecimento, 6,0 mg ou mais de nitrogênio solúvel das proteínas do soro por grama de pó; aquecimento médio, de 1,51 a 5,99 mg/g; e alto aquecimento, 1,5 mg/g ou menos. São categorias úteis no processamento de alimentos, pois o histórico térmico afeta a funcionalidade.

Entretanto, o WPNI é influenciado pela concentração proteica do pó. Sikand et al. (2008) mostraram que padronizar o pó com lactose ou permeado pode alterar o WPNI a ponto de mudar sua classificação aparente, sem aquecimento adicional da proteína. Eles propuseram expressar o nitrogênio solúvel do soro por grama de proteína, em vez de por grama de pó.

Górka e Budziński (2026) utilizaram um WPNI corrigido pela proteína para caracterizar os ingredientes de leite desnatado e soro em seu estudo recente. Ressaltaram corretamente que o WPNI reflete solubilidade proteica e não mede diretamente a estrutura da proteína. É um indicador, não uma descrição completa da qualidade.

Por que a coagulação depende de mais do que calor

Mesmo um excelente leite desnatado em pó pode se comportar de modo diferente quando incorporado a um sucedâneo completo. A formação do coágulo depende da disponibilidade de cálcio, do pH, dos sólidos totais, das interações proteicas, da incorporação de gordura e de outros detalhes da formulação.

A série de Emmons e Lister demonstrou isso claramente. A adição de proteínas, gordura, cálcio, fosfato e citrato podia alterar a coagulação. Trabalhos posteriores mostraram que o método de dispersão de gordura em um sucedâneo com leite desnatado alterava a firmeza do coágulo e a sinérese. A homogeneização sob alta pressão produzia coágulos mais macios que alguns métodos de menor pressão. Portanto, “50% de leite desnatado” não especifica a funcionalidade do produto final.

O estudo de Vorndran e Steinhoff-Wagner (2025) oferece um exemplo atual. O sucedâneo continha 50% de leite desnatado em pó, mas testes laboratoriais associados ao mesmo programa de pesquisa mostraram que o produto final não formava coágulo firme nas condições avaliadas. Seja por aquecimento, formulação, minerais, processamento de gordura ou interações entre ingredientes, o percentual de leite desnatado, isoladamente, não previu a coagulação.

O que deve ser testado?

Não há um único número laboratorial capaz de indicar se um ingrediente lácteo é “bom”. Um programa de controle de qualidade útil reúne análises de composição, testes funcionais e, por fim, dados com animais. A importância de cada teste depende da utilização do ingrediente.

Tabela 1. Exemplos de testes para caracterizar ingredientes lácteos empregados em sucedâneos do leite para bezerros.

Teste ou informaçãoO que pode revelarLimitação importante
Composição centesimalProteína, gordura, cinzas, umidade e lactose; verifica metas de formulação e consistência dos lotes.Não descreve digestibilidade proteica nem dano térmico.
Perfil de aminoácidosConfirma fornecimento de aminoácidos essenciais e auxilia a formulação equilibrada.Aminoácidos totais não são necessariamente digestíveis ou reativos.
WPNI / nitrogênio solúvel do soroIndica histórico térmico e desnaturação das proteínas do soro.É influenciado pela composição do pó; não mede diretamente coagulação ou digestibilidade.
Tempo de coagulação e firmeza do coáguloTesta a coagulação do ingrediente ou sucedâneo final em condições padronizadas.Coagulação in vitro não prova que todo bezerro formará coágulo ou terá melhor desempenho.
SinéreseMede contração do coágulo e expulsão do soro; descreve sua funcionalidade.É útil somente quando a formação de coágulo é desejada.
Solubilidade / dispersibilidadeIndica comportamento na mistura e alguns danos por processamento.Proteína solúvel pode ter características nutricionais ou funcionais alteradas.
Indicadores de dano térmico / MaillardPodem identificar aquecimento excessivo, perda de lisina reativa ou produtos de Maillard.Métodos e interpretação variam; nem toda alteração térmica reduz desempenho.
Ensaios de digestibilidade / desempenho de bezerrosIntegram ingrediente, formulação e fisiologia do bezerro.Mais caros e demorados que testes rotineiros; exigem desenho adequado.

Os fabricantes usam esses testes?

Fabricantes especializados geralmente realizam muito mais controle de qualidade do que aparece no rótulo. A Denkavit, por exemplo, descreve publicamente a triagem laboratorial de possíveis ingredientes proteicos quanto a solubilidade, estabilidade e fatores antinutricionais, seguida de ensaios de digestibilidade em bezerros antes da adoção. Essa filosofia de avaliação é importante.

Não encontrei documento público da Denkavit afirmando que todo lote recebido de leite desnatado em pó seja rotineiramente submetido a teste de coagulação por coalho. Talvez o façam internamente, mas isso não deve ser afirmado sem documentação. Quem considera a coagulação importante deve perguntar se o fabricante testa o ingrediente, o sucedâneo final ou ambos, e qual método utiliza.

Uma pergunta melhor na compra

A discussão sobre leite desnatado frequentemente se torna questão de especificação: “quero pelo menos 30%” ou “pelo menos 50% de leite desnatado”. Isso atrai porque é um número simples e fácil de incluir no contrato de compra. Infelizmente, pode gerar falsa sensação de precisão.

Uma especificação mais útil perguntaria sobre a qualidade e consistência de todo o sistema proteico. Quais ingredientes lácteos são utilizados? Como os lotes recebidos são avaliados? O leite desnatado é de baixo, médio ou alto aquecimento? O WPNI é medido? Se a coagulação importa, o sucedâneo final foi testado quanto à coagulação e firmeza? As concentrações de aminoácidos são controladas? Que evidências existem de digestibilidade em bezerros jovens? Qual variação entre lotes é aceita?

Essas perguntas são mais difíceis do que ler um percentual no rótulo, mas estão muito mais próximas da biologia do bezerro.

A qualidade dos ingredientes pode explicar antigas contradições

Essa perspectiva ajuda a reconciliar a literatura histórica. Alguns sucedâneos antigos que não coagulavam apresentaram desempenho ruim, levando à crença de que a falta de coágulo causava diarreia e crescimento lento. Entretanto, muitos também continham proteínas lácteas muito aquecidas, proteínas vegetais mal processadas ou outros ingredientes pouco digeríveis para bezerros jovens. Experimentos posteriores que impediram a coagulação sem alterar a fórmula de leite desnatado geralmente não reproduziram esses resultados ruins.

O inverso também é verdadeiro. Uma fórmula não se torna nutricionalmente superior simplesmente por conter muito leite desnatado. Se ele foi aquecido excessivamente ou o produto final tem propriedades funcionais ruins, o nome do ingrediente oferece pouca garantia.

Resumo

O leite desnatado em pó pode ser uma excelente fonte de proteína para bezerros, mas seu nome não é uma especificação completa de qualidade. O tratamento térmico altera proteínas do soro, interações com caseína, reações de Maillard e coagulação. O WPNI fornece informações sobre o histórico de aquecimento, mas não mede diretamente a coagulação nem a digestibilidade. Os testes de coagulação e firmeza fornecem dados funcionais, porém a formação do coágulo não melhorou consistentemente o crescimento ou a utilização de nutrientes. Os melhores programas de controle combinam composição, indicadores de processamento, testes funcionais e ensaios de digestibilidade ou desempenho animal.

A mensagem prática desta série de três notas é simples: avalie o sistema proteico, não apenas o nome do ingrediente. Percentual de leite desnatado, presença de soro e capacidade de coagulação são informações; nenhuma delas, isoladamente, define a qualidade de um sucedâneo.

Fonte da indústria

Denkavit. 2019. What’s actually in the calf milk replacer? Theme: raw materials – vegetable proteins. Link

Referências

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Emmons, D. B., E. E. Lister, and D. L. Campbell. 1976. Quality of protein in milk replacers for young calves. III. Rennet coagulation and undenatured whey protein nitrogen content of skim milk powders and commercial milk replacers. Can. J. Anim. Sci. 56:335-338. doi:10.4141/cjas76-039. Link

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Sikand, V., P. S. Tong, and J. Walker. 2008. Impact of protein standardization of milk powder with lactose or permeate on whey protein nitrogen index and heat classification. Dairy Sci. Technol. 88:105-120. doi:10.1051/dst:2007011. Link

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Wilms, J. N., M. H. Ghaffari, M. A. Steele, H. Sauerwein, J. Martin-Tereso, and L. N. Leal. 2022. Macronutrient profile in milk replacer or a whole milk powder modulates growth performance, feeding behavior, and blood metabolites in ad libitum-fed calves. J. Dairy Sci. 105:6670-6692. doi:10.3168/jds.2022-21870. Link

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