Calf Note #260 – Variação diária no consumo de concentrado inicial por bezerras

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Autor: Jim Quigley

Traduzido por: Ana Luiza Resende e Rafael Azevedo

Introdução

Recentemente tive uma conversa interessante com criador de bezerras na Ásia que estava trabalhando para otimizar seus protocolos de alimentação no período do desaleitamento, com o objetivo de reduzir a diarreia crônica que surgia à medida que as bezerras aumentavam o consumo de concentrado, enquanto o leite era reduzido na preparação para o desaleitamento.

A Situação

A fazenda criava cerca de 8.000 bezerras por ano em uma região árida da Mongólia Interior. A fazenda era muito bem administrada, moderna e com altos níveis de sanidade. A morbidade e mortalidade pré-desaleitamento eram mínimas.

As bezerras recebiam até 12 L de leite por dia até aproximadamente 9 semanas de idade, e então a ingestão de leite era gradualmente reduzida até o desaleitamento, em torno de 12 semanas. O concentrado era formulado e fabricado em um moinho local, mas a fórmula não era conhecida. Estimamos que continha bastante amido e carboidratos não fibrosos (CNF) (>30%), conforme indicado pela lista de ingredientes.

Após o desaleitamento, as bezerras eram transferidas para baias coletivas com cerca de 20 animais cada. Havia bastante espaço em cada baia, que ficava em um galpão aberto e bem ventilado. Ração e água estavam sempre disponíveis. Feno de gramíneas misto era oferecido à vontade no cocho, juntamente com o concentrado, e as bezerras tinham livre acesso a ambos.

À medida que o consumo de concentrado aumentava com a redução do leite, muitas bezerras apresentavam fezes mais líquidas. Ocasionalmente, as fezes continham pequenas bolhas, indicando fermentação de amido/CNF e casos claros de acidose. A diarreia desaparecia gradualmente quando as bezerras passavam a receber uma dieta total (TMR) contendo maiores quantidades de feno, silagem de milho e menos concentrados. No geral, o episódio de diarreia durava cerca de 45 dias. Apesar disso, as bezerras pareciam saudáveis e as taxas de crescimento eram excelentes.

A Primeira Intervenção

Então, o que estava acontecendo nessa fazenda? Se você pensou que a alta ingestão de amido dos grãos, associada ao baixo consumo de forragem (pelas bezerras que não ingeriam muito feno), era responsável pela acidose e pela diarreia, pensou como eu. Minha “sensação” era de que o alto teor de CNF no concentrado estava sendo rapidamente fermentado no rúmen, causando baixo pH, falta de digestão de fibra e acidose.

Essa situação é bastante comum, especialmente quando as bezerras estão sendo desmamadas após receberem grandes quantidades de leite. Minha recomendação foi criar uma “TMR seca” com cerca de 10% de forragem e 90% de concentrado. O feno picado poderia ser misturado ao concentrado para que as bezerras não pudessem escolher a quantidade de cada um. A inclusão de forragem deveria ser suficiente para minimizar a queda do pH e controlar a acidose. O produtor concordou em implementar a mudança imediatamente.

A Segunda Intervenção

Após alguns meses, entrei em contato novamente com o produtor para verificar como estavam as coisas. As bezerras ainda estavam com diarreia? O produtor relatou que a ocorrência havia reduzido significativamente, mas ainda havia casos que a equipe de manejo considerava inaceitáveis.

Pedi para ver uma foto da mistura e perguntei como estava sendo fornecida. A foto mostrou alguns problemas imediatos. Primeiro, não havia como aquela mistura conter 10% (em peso) de forragem. Talvez tivesse uns 2%, mas não 10%. Descobriu-se que os funcionários haviam entendido que a taxa de inclusão deveria ser 10% em volume, e não em peso. Além disso, o comprimento de corte do feno era muito longo, e provavelmente as bezerras estavam separando as partículas e descartando-as do balde. Por fim, a equipe da fazenda queria garantir que as bezerras comessem tudo, então deixavam que ficassem sem alimento durante a noite, o que fazia com que comessem demais pela manhã.

Aqui entram alguns pontos importantes a considerar. O primeiro é a variação diurna normal no consumo de concentrado por bezerras desaleitadas. Embora muitas vezes assumamos que elas comem de forma mais ou menos constante ao longo do dia, na prática há bastante variação no comportamento alimentar.

Um estudo de Miller-Cushon et al. (2013) mostrou essa variação em bezerras desaleitadas alimentadas com mistura de ingredientes (TMR seca) ou componentes individuais (feno e grão). O estudo mostrou claro aumento no tempo de alimentação das 8h às 11h, sugerindo que bezerras tendem a comer mais pela manhã do que em outros períodos do dia. Isso é consistente com várias observações de campo, nas quais bezerras mantêm uma “rotina matinal” de maior ingestão de alimento.

A combinação de relativa falta de volumoso na TMR seca, comprimento longo do volumoso, fornecimento semi-restrito e alto teor de carboidratos não fibrosos (CNF) parece ser um conjunto de fatores que contribuem para a diarreia persistente no período próximo ao desaleitamento.

*time of day = hora do dia; Feeding time = hora da alimentação

Portanto, as recomendações reiteradas à equipe de manejo da fazenda foram:  pesar e misturar a TMR seca com base no peso, picar o volumoso mais finamente para minimizar a chance de separação das partículas e manter alimento e água disponíveis o tempo todo. A equipe concordou em implementar essas mudanças e voltaremos a verificar em alguns meses.

Resumo

Os protocolos dentro da fazenda são importantes – e é fundamental que sejam transmitidos corretamente da equipe de manejo para os trabalhadores que os executam. Neste caso, a falha na comunicação foi facilmente corrigida com um treinamento adicional e com a explicação do motivo de se fornecer a quantidade adequada de volumoso. Espera-se que esses ajustes em um programa de bezerras já excelente melhorem a eficiência e resultem em vacas ainda melhores.

Referências

Miller-Cushon, E.  K., R. Bergeron, K. E. Leslie, G. J. Mason, and T. J. DeVries. 2013. Effect of feed presentation on feeding patterns of dairy calves. J. Dairy Sci. . 96 :7260–7268. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0022030213006255.

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